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Pedra de Amolar

O vestido de, finalmente, acordar

Na coluna Pedra de Amolar, a escritora Juliana Prado transforma um vestido em metáfora de liberdade, esperança e renascimento

Publicado em 14/08/2026 às 18:52
Atualizado em

(Foto: Imagem criada por Inteligência Artificial)

(Foto: Imagem criada por Inteligência Artificial)

(Especial publicitário)


Quando eu sair daqui, vou de vestido novo. Ele será infinito, terá léguas de panos, cores que vou inventar e histórias de viés embutidas, bem costuradas à bainha. O meu vestido de sair para voar terá flores, adornos e retalhos. Ele vai se arrastar pela calçada, catando as folhas das amendoeiras da minha rua.

Será um vestido tão longo e tão lindo que virão os pequenos meninos na rua pedindo pra dar uma volta de vestido. Subirão nos 93 panos do meu vestido de ser livre uns 12 meninos. E outra dúzia de meninas. Embolados, desfilaremos pelas ruas ainda inabitadas como se fôssemos os donos do mundo.

O meu vestido vai carregar com ele tanta gente que terá que ser revestido de lona por baixo. Vou cuidar disso em bastante breve... É que ele será como uma armadura de pano a transportar o peso de menino, moça, mosca, cachorro, jabuti e passarinho livre.

Meu vestido e meus amigos de delírio solar serão vistos de Marte. Vai revolucionar a baixa costura. E a mais alta alegria. Eu bordo, neste fim de dia, bastante em silêncio, quieta no meu canto, o meu vestido de finalmente ser poesia.

Terá botão, cós, retalho rendado e brocado o nosso vestido de cantar calmaria. Mas ainda é hora de recolher antes de estrear. Eu quase ouço meu vestido de voar se esticando no armário escuro. E se ajeitando, mãos cruzadas na seda, para deitar. Ele também se prepara pra quando o mar se abrir.

Eu acho que é tão ornado e cuidado e preparado meu vestido de viver que ele parece que é do tamanho do mundo. Durmam, retalhos de panos. Sonhem, brocados e fios. Em breve lhes pego nas mãos. E invadiremos a praça em blocos, reisados e um grande estardalhaço.

Aí, então, veremos que fomos salvos. Essa gente em pane a catar histórias, a soltar fitas coloridas no ar. Como se o povo todo tivesse parado para ver o maior espetáculo do mundo: o vestido de finalmente acordar. 


Este texto foi originalmente publicado no dia  14 de maio de 2020, durante a pandemia de Covid-19


Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista

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Fonte: Juliana Prado

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