Pedra de Amolar
Ninguém solta a mãozinha de ninguém
Na coluna Pedra de Amolar, a escritora Juliana Prado reflete sobre a magia da Copa do Mundo e o poder do futebol de unir pessoas e despertar emoções
Publicado em
17/07/2026 às 19:07
Atualizado em
(Especial publicitário)
Que sentimento é esse que faz o coração querer sair pela boca? Que faz a gente se sentir íntimo de um rapaz de Cabo Verde de nome diminutivo que a gente nunca viu na vida? Que sensação doida é essa que faz você olhar pra um craque de 19 anos de nome complicado e se sentir amiga próxima dele?
Esse sentimento se chama futebol.
O futebol é mágico. Você pode não entender nada, achar que física quântica é mais simples que calcular um impedimento. Mas se você se colocar disponível.... uma hora vai se encantar com aquilo. Por mais perna de pau que você seja, você não vai ficar indiferente a tanta celebração e euforia.
A Copa do Mundo é tipo uma reunião da ONU que deu certo. Que chega a termos, que estabelece a paz universal. E decreta na Carta Aberta ao Mundo Todo que o encanto e o êxtase do gol são soberanos. Mesmo que por pouco tempo, a Copa é uma espécie de Cúpula Mundial dos Povos Esquecidos dos Problemas.
A irresistível magia da Copa

Com todos os absurdos que vimos na Copa dos Estados Unidos, com o preconceito contra as seleções (africanas e iraniana em especial) há ali instituído um momento mágico. Não tem jeito. Não podemos deixar de refletir sobre os horrores do racismo exposto por algumas torcidas. Esses não sabem e nem nunca saberão o que é a paz universal.
Esses não fazem parte da Cúpula das Nações. Nunca pertencerão a essa.... reunião da ONU que dá certo. Mas a magia do futebol é tão grande que esses aí passam e as boas lembranças ficam.
Eu comecei a Copa dizendo que não estava nem aí pra ela, que a Seleção Brasileira masculina não me emociona e blá blá blá.... Corta pra abertura oficial do evento, e todo aquele ideário desanda. Vai por terra toda a teoria revoltosa acumulada. Anti- Fifa sim. Contra o esporte mais popular do mundo, jamais.
No primeiro chute o coração se empolga - do mais absoluto nada. Quando vejo estou vestida com aquele moletom verde e amarelo surrado e lindo. O mesmo que ficou de castigo por 4 anos no fundo do armário porque, afinal, seu uso é.... "só pra Copa".
Eu fico com a pureza da resposta das crianças

Foram 30 e tantos dias mágicos, com cenas hilárias, outras fortíssimas. Como a do torcedor Michel Nkuka Mboladinga, conhecido como Lumumba Vea, da República Democrática do Congo, que passava os jogos como estátua humana em homenagem a Patrice Lumumba, o líder da luta anticolonial do país.
A República Democrática do Congo só se viu livre do domínio belga "anteontem", em 1960. Pois é.... a mesma Copa que maltrata e escancara as desigualdades entre as nações também serve pra nos contar histórias que possivelmente nunca conheceríamos.
E as crianças, gente!? Foram 38 dias de sonho, choro, angústia, alegrias... Que anjos são aqueles mini torcedores... Eles são os representantes do time das "Naçõezinhas Unidas da Copa". Talvez sejam as autênticas representantes da harmonia e do sonho contidos numa simples bola.
O futebol, tenho minhas suspeitas, é jogado pra elas. Porque as crianças, sim, e apenas elas, entendem o encantamento inaugural. Elas não querem saber se foi pênalti, escanteio, tiro de meta ou coisa que o valha. Elas têm na alma a pureza da alegria do gol. Elas são o êxtase, sem cálculo perfeito, sem estratégia de jogo. Os meninos e as meninas se dispõem pra vida e pras quatro mágicas linhas do campo....
O lado bom da Copa
Sobre a seleção brasileira, nada a declarar. Precisaria de mais uma Pedra de Amolar pra desfiar o rosário da minha amolada indignação. A seleção quase me tira o brilho e o sem sentido maravilhoso desses dias.
Por isso, fico só com o lado bom dessas últimas semanas. Com o som da torcida enlouquecida na hora da vitória histórica. Com a vibração dos países explorados, pobres, que lutaram tanto pra estar ali. E muitas vencendo seus antigos algozes. Pelo menos naquele momento, bola em campo, se fez a reparação histórica.
Sim, o futebol é ópio, ilude a gente. Que bom que ele existe então! Hoje eu prefiro abrir o mapa mundi e desenhar no gramado a paz conquistada em campo. Afinal, a Terra é redonda. O campo, um caldeirão. O futebol, uma guerra sem sangue. O resto é poeira de tempos ruins. É pausa, sem hidratação.
No mais, dedico esse texto ao Yamalzinho Lamal. O irmão pequerrucho do fenômeno espanhol. A criança-símbolo dessa batalha campal. Que tem o bem, tem o mal, tem os déspotas e os heróis. Essa Copa é sua, menino! Afinal, a regra é clara: ninguém solta a mãozinha de ninguém!
Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista
Fonte: Juliana Prado
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