Portal da Cidade Ibertioga

Pedra de Amolar

O mistério da mulher do olho de vidro

Na coluna Pedra de Amolar, a escritora Juliana Prado resgata uma lembrança da infância para falar do encanto, da curiosidade e da imaginação

Publicado em 31/07/2026 às 19:34
Atualizado em

Armazém (Foto: Ilustração Pinterest)

(Foto: Ilustração Pinterest)

(Especial publicitário)


O serviço dela ficava bem de frente para a linha onde passava o trem, no armazém do seu Cleto. Arlete – ou seria Janete? Ivete? - era a mulher mais importante do bairro de Matozinhos. Era a única, na história de toda a civilização, que tinha um olho de vidro. O mistério para as crianças na época, fins da década de 1970, início de 80, era entender como ela podia, ao mesmo tempo, ter um olho artificial e viver, acordar, dormir, pagar contas, passar roupa, ir à praça, trabalhar (!), tudo como qualquer pessoa “normal”. 

Daí que ir ao armazém do seu Cleto comprar “100 gramas de fermento Fleschman” não era apenas cumprir um mandado. Era um acontecimento. A criança já entrava no armazém - que para alguém com um metro de existência era um mundo de grandeza - procurando pela Arlete. Ela ficava no caixa, então não tinha jeito, o encontro só se dava ao final da compra. 

Mil perguntas de criança


De frente para a mulher do olho de vidro, a criança misturava o susto com o prazer de possuir tamanho privilégio: conhecer a única mulher com olho artificial do Planeta, coisa de fazer inveja a qualquer menino da capital Belo Horizonte ou do mundo inteiro mesmo. Simpática, Arlete recebia o dinheiro, providenciava o troco, fazia carinho na criança e continuava seu serviço. Tudo normal, prosaico, como quem não enxerga a importância que tem perante a Humanidade.

A menina, quase uma espiã, quieta, olhava de novo, recolhia o troco e voltava para casa. Cem gramas de um gelado fermento Fleschman na mão esquerda. Um mundo inteiro fervendo na outra. 


Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista

Instagram


Fonte: Juliana Prado

Participe do grupo do Portal da Cidade no WhatsApp