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Força feminina

Mulheres mantêm viva a tradição da Congada em Piedade do Rio Grande

Pesquisa da historiadora Lívia Nascimento Monteiro revela o papel das mulheres como guardiãs da fé, da memória e da organização da festa

Publicado em 06/03/2026 às 19:29
Atualizado em

D. Juca, D. Rita, D. Maria do Carmo, D. Francisca e D. Sueli. Grupo de mulheres negras na Missa Afro, maio de 2015 (Foto: Rui Ernani)

Guardiães da festa: Nair, Nilza, Lurdes, Ana e Adalgiza, em 2015 (Foto: Gerusa Coelho)

Francisca de Assis Braga, em 2014 (Foto: Renato Oliveira)

D. Efigênia e D. Erondina, em 2014 (Foto: Rui Ernani)

Maria Emerenciana Lima, em 2014 (Foto: Renato Oliveira)

Neste período em que se destacam as reflexões do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o Portal da Cidade Ibertioga volta o olhar para aquelas que sustentam uma das tradições culturais mais importantes da região: a Congada e o Moçambique de Piedade do Rio Grande.

Embora tradicionalmente não participem das danças nas ruas, as mulheres são responsáveis por grande parte do trabalho que mantém a festa viva. Elas organizam os ternos, produzem as vestimentas, cuidam da alimentação coletiva, preservam a memória da comunidade e ocupam espaços de liderança dentro do reinado.

As informações fazem parte da tese de doutorado da pesquisadora Lívia Nascimento Monteiro, defendida em 2016, intitulada “A Congada é do mundo e da raça negra: memórias da escravidão e da liberdade nas festas de Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande-MG (1873-2015)”.

Liderança e organização

Entre as mulheres que ajudam a manter a tradição está Raimunda Teodoro, conhecida como Dica, que já foi Rainha Conga. O cargo representa a principal liderança feminina da festa e simboliza a autoridade do trono dentro do reinado.

Outra figura importante é Francisca de Assis Braga, a Chiquinha, que já presidiu a associação responsável pela Congada. Além das funções administrativas, ela também canta e é uma das responsáveis pela confecção dos chapéus coloridos usados pelos congadeiros.

Maria Nair de Faria mora em São Paulo, mas retorna todos os anos para ajudar na organização da festa. Ela acompanha de perto cada detalhe dos rituais e cuida da preparação dos ternos.

Trabalho nos bastidores


Grande parte da estrutura da Congada acontece fora dos olhos do público. Mulheres como Dona Erondina (Neguinha) dedicam anos à produção de chapéus e indumentárias.

Maria José de Faria ficou conhecida por cuidar com zelo das roupas usadas pelos integrantes da festa.

A alimentação também é parte essencial do evento. Dona Efigênia Nascimento foi cozinheira da celebração por mais de quatro décadas e também uma das responsáveis por transmitir histórias importantes, como o mito da aparição de Nossa Senhora do Rosário.

Memória e novas gerações

A preservação da história também passa pelas mulheres. Maria Emerenciana Lima (Lica), foi reconhecida como uma das guardiãs da memória da Congada, responsável por transmitir relatos sobre quando a associação foi fundada e a história das famílias ligadas à tradição.

Já a nova geração aparece representada por Sauara Faria, que utiliza a formação acadêmica para dar visibilidade à trajetória negra da família dela e da comunidade.

Fé, identidade e resistência

Segundo a pesquisa de Lívia Monteiro, a dedicação dessas mulheres vai muito além da organização da festa.

Para muitas delas, a Congada é um espaço de reencontro com as raízes familiares, de devoção religiosa e também de afirmação da identidade negra. Ao manter a tradição, elas ajudam a preservar valores transmitidos por gerações de descendentes de pessoas escravizadas.

Sem esse trabalho — que vai desde a preparação das roupas brancas até a organização das missas e de rituais — a festa perderia grande parte de sua força.

Por isso, as mulheres são consideradas as verdadeiras guardiãs da Congada de Piedade do Rio Grande, garantindo que a memória, a fé e a cultura afro-brasileira continuem vivas.


Fonte: Lívia Nascimento Monteiro

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