Pedra de Amolar
Juliana Prado escreve sobre infância, chuva e os milagres da imaginação
Em mais uma crônica poética, escritora mistura lembranças, imaginação e afetos em um texto para ler devagar, como quem escuta a chuva. Delicie-se.
Publicado em
22/05/2026 às 18:51
Atualizado em
(Especial publicitário)
História pra ler enquanto chove fininho
Chove muito lá fora. Uma chuva colorida. Pingos graúdos ligeiros se espatifam. Como jabuticaba que estrala na boca. Ploc.
Chove com calma. Deixando o povo à espera da estiagem. À espreita de vida nova, do milagre do aparecimento das flores. Se chove e para, vem perfume de terra regada. Como se a vida cumprisse em cachoeira o ciclo inexplicável. Chuva é igual viver. Enxurrada.
Se chove insistente, a gente suspende a vida.
E depois areja.

Quando chove assim, intenso, eu volto pra minha casa. A gente, miúdo, despreparado pros fenômenos da natureza, não entendia nada. Mas amava muito. A vida de gente grande pra menino pequeno se dava era quando o céu carregava, o trovão balançava e alguém se arvorava: "Se preparem! São Pedro tá limpando o salããããooo!"
Ali o assunto virava pra sério. A gente temia. Rezava e pedia. Se agarrava aos santos (que só tinham uso na aflição, longe do tempo de calmaria). E dá-lhe trovão! Menina corria. Pedia. Em nome do padre, do filho. Do Espírito Atento. Ave minha virgem Maria!

E, do nada, o milagre se fazia. O medo se ia. Era a hora final: a chuva, de água, virava em pedra. E o jardim de um tapete de gelo se coloria. A vida, de repente, prima da magia, se transformava em granizo.
A gente, meio metro de altura, encarava o céu. Do alto, lá de cima, de um ponto que só enxergava quem sabe o que via, alguém, maroto, nos piscava o olho. E tava feito o acordo. Acertado o segredo. Era posto o milagre da travessia. Água virada em pedra. Preciosidade. Alegria! Ninguém mais na família. Só a gente e o Altíssimo é que disso sabia.

(Obs de uma história que já enxaguou:
Eu até que não sou um pote transbordante de felicidade. Mas uma coisa comigo se dá: que pessoa menos chuvosa eu seria se não conseguisse escrever! A escrita é minha chuva de pedra. É o trovão da minha rua. Céu carregado. Chove colorido porque junto as letras uma a uma. E invento pra mim um arco-íris. Gota por gota. Ideia alinhavada em ideia. Eu chôvo fino toda vez que construo palavra. Não tem jeito nem sequer conserto. Minha escrita é matéria de alucinação, piscadela de olho divina e um embornal de granizo. Escrever é enxurrar.)
Juliana Prado
Instagram | @julianapradoc
Fonte: Juliana Prado
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