Serra da Mantiqueira
Sabores e histórias da Mantiqueira: um roteiro irresistível em Pouso Alto
Vinícola, queijaria e distrito histórico, nas Terras Altas, evidenciam a força do turismo na região. Destaque para as imagens raras de Nossa Senhora Menina
Publicado em
29/12/2025 às 15:37
Atualizado em
Imagem de Sant´Anna e Maria Menina no altar da igreja em homenagem à Mãe de Nossa Senhora (Foto: Portal da Cidade Ibertioga)
Viajar pelas Terras Altas da Mantiqueira é ter a oportunidade de conhecer de perto experiências que unem produção artesanal, gastronomia, história, fé e hospedagem rural. A força do turismo gastronômico em Pouso Alto é evidente não apenas pelas delícias locais, como a ficazella, mas também pela potência na elaboração de produtos de alta complexidade, como vinho e queijo, já premiados nos primeiros lotes.
Vinícola Família Maioli

Um excelente exemplo é a Vinícola Família Maioli, localizada na zona rural da cidade. O empreendimento é comandado pelo casal Diego e Juliana Maioli, que deixou o Rio de Janeiro para investir no cultivo de uvas na Mantiqueira. O projeto começou a ser idealizado em 2016 e ganhou forma a partir de 2021, com a adoção da técnica da dupla poda, que permite a colheita no inverno, período mais favorável para a produção de vinhos finos na região, a cerca de 1.200 metros de altitude.
Na primeira safra, em 2024, foram colhidas aproximadamente 1,5 tonelada de uvas. Já na segunda, a produção praticamente dobrou, com expectativa de alcançar, nos próximos anos, até 4 mil garrafas por safra. Entre os destaques estão os vinhos elaborados com a uva Marselan, pela qual Diego se declara apaixonado. “Para meu gosto, é a melhor uva que tem. Sou apaixonado por Marselan, tanto que eu trouxe pra plantar aqui”, comenta.
Também há rótulos elaborados com Syrah, Cabernet Franc, também cultivadas na vinícola, e blends exclusivos, como o Il Primo, premiado com medalha de ouro na safra 2024. Parte do processo de vinificação é realizada em parceria com vinícolas especializadas, garantindo qualidade e identidade própria aos rótulos.
A vinícola vende os produtos pela internet. @vinicolafamigliamaioli. (35) 99752-0052.
Queijaria Mancilha e Vilela

A experiência seguiu para a Queijaria Mancilha e Vilela, no bairro Florentino, zona rural de Pouso Alto. À frente da produção está a médica veterinária Rafaela Barbosa Vilela e o marido, o administrador Luiz Eduardo Mancilha, que transformaram a tradição leiteira da família em queijos artesanais de alto padrão. Utilizando leite cru e soro fermento natural, a queijaria produz de 200 a 300 litros diários, com queijos maturados por até três meses e acompanhados individualmente.
Mesmo com pouco tempo de funcionamento, a queijaria já conquistou reconhecimento, incluindo premiação em concurso municipal e avaliação técnica em Belo Horizonte, onde alcançou pontuação de 98,9, nota que, em um concurso oficial, renderia medalha de ouro.
“Depois que tudo ficou pronto na fazenda, deu medo se a gente ia conseguir fazer queijo. Mas, então, ganhamos este prêmio e tivemos certeza que a gente tava no caminho certo”, conta orgulhosa Rafaela. As 14 vacas da fazenda e o leite de alta qualidade são as estrelas da produção, tratada como tal. “Elas têm ventilador, um lugar conforátavel, comida de primeira, pasto. Quanto mais relaxadas, mais elas produzem”, explica Luiz Eduardo. Entre as variedades produzidas estão o Mantiqueira de Minas, queijos tradicionais, defumados, temperados, com mel, tomate seco e o chamado capa preta, que recebe uma resina natural para controle de fungos e maturação prolongada.
Durante a visita, também foi realizada uma harmonização entre os vinhos da Família Maioli e os queijos da Mancilha e Vilela, evidenciando como os produtos locais dialogam entre si e fortalecem a identidade gastronômica da Mantiqueira.
A queijaria vende os produtos através do perfil do Instagram @queijariamancilhavilela
Santana do Capivari

“Santana do Capiravi parece parada no tempo”. Assim se encontra uma descrição do distrito de Pouso Alto no Almanaque Sul-mineiro (1874-1884). E parece que até hoje é quase nada mudou. Visitar o distrito promove a sensação de voltar ao passado. Quem conta os detalhes do distrito é o historiador Gutavo Uchôas. “Até hoje ainda tem essa característica de um núcleo pequeno, agrícola, rural e que não tem tamanho e infraestrutura pra se emancipar”, explica.
O lugar é um dos mais antigos da cidade, com mais de 300 anos de história e surgiu como posto de registro tributário na Estrada Real. Capivari, em tupi, significa rio das capivaras.
Igreja de Sant´Anna do Capivari

Um dos principais patrimônios do distrito é a Igreja de Sant’Anna do Capivari, que pertence à paróquia criada em 1839, uma das mais antigas da Diocese de Campana. Apesar disso, a atual construção é de 1902, data estampada na fachada da igreja. O que mais impressiona são as imagens de Nossa Senhora Menina, já que o longo da história da arte sacra cristã, a iconografia dedicada à Virgem Maria concentra-se majoritariamente em representações adultas. Maria ainda menina ou na infância não fazem parte do repertório dominante da arte cristã ocidental e são consideradas menos comuns na iconografia sacra, o que torna ainda mais interessante observar a presença dessas imagens no acervo da igreja de Sant’Ana do Capivari.
Quem mantém tudo em ordem no templo é a sacristã Claudia Regina Maximiano, que trabalha no local há dois anos. Ela é devota de Santa Rita e conta que limpar, organizar e preparar a igreja para as missas a ajuda a esquecer a perda do pai, morador atuante nas atividades religiosas do distrito. “Trabalhar aqui me ajudou a passar por uma depressão depois da morte do meu pai”, conta emocionada.
Capela de Santa Rita

A Capela de Santa Rita de Cássia foi construída no século XIX, antes de 1874 data mencionada no Almanaque Sul-mineiro, primeira publicação de que se tem notícia sobre a igreja. Hoje, ela serve de destino de romarias que atraem fiéis de várias cidades da região.
Gustavo resume a vocação turística da cidade. “O município de Pouso Alto, com seu distrito de Sant´Anna do Capivari, é um lugar onde se respira a história do sul de Minas desde a colonização até os dias de hoje”.
Gastronomia valoriza produtos da região

Como não poderia ser diferente, a gastronomia típica mineira precisa fazer parte de qualquer roteiro. Nosso almoço foi no tradicional Restaurante Lírio do Vale, conhecido pela comida feita no fogão a lenha e pela forte ligação com moradoras, moradores, viajantes, romeiras e romeiros que passam por Santana do Capivari. Mas, atenção, se você for fã de uma cachacinha no almoço, o restaurante não serve a bebida. No entanto, a comida deliciosa e fresquinha vale qualquer visita.
Rua Dario Passos, 218 — Santana do Capivari, Pouso Alto. @liriodovale_rest. (35) 99806-7555.
Produtos garimpados garantem qualidade

Ainda deu tempo de conhecer também os empórios mais charmosos e completos da serra. Um deles é a Casa de Queijos do Neto, espaço dedicado à curadoria e à comercialização de produtos artesanais da Mantiqueira e de outras regiões de Minas Gerais, como vinhos, doces, cachaça, biscoitos, geleias, méis, pimentas e cafés.
Quem comanda o local há 17 anos é o casal de queijistas formado pela Escola Brasileira de Queijistas e jurados do Prêmio Queijo Brasil: Michele Constantino e Antônio Neto. Ela explica: “É como se fosse um somelier do queijo. É o elo que liga o produtor até o consumidor final. Nós indicamos o melhor queijo, a melhor harmonização para o cliente”.
O casal sempre busca os melhores produtos da região para atender à exigente demanda de moradoras, moradores e turistas. “Nosso trabalho é de garimpo. Antigamente, a gente ficava louco atrás de bons produtos. Hoje, os bons produtos chegam até a gente. Nós selecionamos o que deve ou não ficar de acordo com a qualidade”, acrescente Neto.
Rua Dario Passos, 320 - Santana do Capivari. @casadequeijodoneto
Tradição tropeira

Já o Empório Massa Fina, comandado por Pamela Ferraz, é também famoso por ter um dos melhores pasteis da região. O espaço conta ainda com uma cafeteria espaçosa e várias outras opções pra aquele cafezinho mineiro completo.
Pamela explica que mantém viva uma tradição familiar de mais de 100 anos na produção de queijos, herdada do bisavô que era tropeiro. Ela conta, orgulhosa, a história: “Meu pai cresceu vendo meu avô e meu bisavô fazendo queijo no quintal de casa, com o leite que tiravam da própria vaca. Eles comercializavam o queijo, que é o Mantiqueira de Minas, em São Lourenço. Eram dois dias de burro pra ir e dois dias pra voltar, com o queijo embalado na folha de bananeira. Até hoje a gente fabrica a mesma receita do meu bisavö”.
Empório e Cafeteria Massa Fina. Rua Dario Passos, 333. @emporio.massafina
Hospedagem em meio à beleza da Serra

Nossa encantadora hospedagem foi em São Sebastião do Rio Verde, na Pousada Spa São Sebastião, que oferece chalés, spa, gastronomia saudável e contato direto com a natureza, reforçando o potencial da região para o turismo de descanso e bem-estar.
Ficamos em confortáveis chalés, com vista para o lago. Há ainda uma bonita capela dedicada ao santo que dá nome ao estabelecimento. O café da manhã se destaca por pães, biscoitos, bolos e geleias feitos ali mesmo. O restaurante atende até tarde da noite. A proprietária Irene Nogueira recebe com muita simpatia e acrescente um toque especial à estadia de qualquer hóspede.
Estrada do Bom Retiro, s/n – Bom Retiro, São Sebastião do Rio Verde. @pousada.saosebastiao
Nossa aventura nas Terras Altas da Mantiqueira termina aqui. A jornalista Adriana Ibiti viajou a convite da Secretaria de Cultura e Turismo do Governo do Estado.
Fonte: Portal da Cidade Ibertioga
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