Serra da Mantiqueira
Pouso Alto: história, sabores e tradições que encantam visitantes
Do Solar dos Barões às feiras e às manifestações culturais, a cidade destaca história, gastronomia e iniciativas que aproximam moradores e turistas
Publicado em
06/12/2025 às 20:18
Atualizado em
Uma mesa cheia de delícias mineiras — muitos biscoitos, bolos, pães de queijo e outras guloseimas — esperava nosso grupo onde hoje funciona a atual sede da prefeitura de Pouso Alto. O casarão, conhecido como Solar dos Barões, foi construído em 1874, quatro anos antes da emancipação da cidade, para ser residência do desembargador Joaquim Bento Ribeiro da Luz, genro do Barão de Monte Verde, Antônio Gomes Nogueira Caldas. Ribeiro da Luz morou na casa com a família até falecer em 1912. Após a morte dele, o casarão ainda serviu de sede para colégios e para o fórum.
O historiador local Gustavo Uchôas explica que o solar foi testemunha da época do grande poderio dos fazendeiros do café, dos barões. “Era um contexto rural escravocrata”, diz. Esse passado não é motivo de orgulho para Roseli Quirino, descendente do Barão de Pouso Alto, Francisco Teodoro da Silva: “A gente tá pagando pelos ancestrais. Ele não era uma boa pessoa”, ressalta. O barão nunca morou no Solar, já que faleceu em 1868, antes da construção da casa.

Gustavo conta ainda que Pouso Alto e região foram um dos últimos redutos a resistir à abolição da escravatura. “O Sul de Minas levou a escravidão até o último momento, com o discurso de que abolir a escravidão iria quebrar a economia do Brasil. A lei aboliu. Mas a mentalidade escravocrata ainda sobreviveu por muito tempo.” Roseli comenta que havia falta de fiscalização. “Os fazendeiros eram a lei. Aqui também era distante do Rio de Janeiro, centro do país.”
Gustavo completa: “Os principais movimentos abolicionistas se davam no Rio de Janeiro e em São Paulo. Então essas ideias vigavam lá, mas não aqui. O pensamento aqui ficou muito conservador.”
Na época do ouro, em Pouso Alto e região, era comum a escravização de indígenas. Muitos aventureiros paulistas, conhecidos como bandeirantes, vinham de Taubaté para o interior de Minas, aproveitando caminhos que os povos originários já usavam. Além disso, havia a escravização de indígenas guaranis no Sul do Brasil, que também eram levados para a região de Pouso Alto. “Há vários registros de batismo, casamento e morte de pessoas carijós, que era como os paulistas se referiam aos guaranis”, explica Gustavo.
As memórias da escravidão estão por várias partes. No casarão, é possível visitar o local onde funcionava a senzala, onde pequenos buracos na parede permitiam a pouca entrada de ar. O chão de terra e de pedra completam o ambiente insalubre. Também caminhamos por uma rua de pedra construída por pessoas escravizadas.
Origem do nome Pouso Alto
A tradição indica que os bandeirantes de Taubaté — Antônio Delgado da Veiga, o filho dele João da Veiga e Manoel Garcia — adentraram a região após receberem informações de um indígena sobre a existência de ouro. Ao pernoitarem no cimo de um morro, construíram um rancho de folhas de palmeira, denominando o local de “Pouso Alto”. No lugar desse rancho, hoje se ergue a Igreja Matriz.
“Eles pousaram aqui, dormiram, passaram uns dias. E, para marcar como um ponto de repouso, faziam roça, construíram uma capela e fincaram uma cruz. O que era uma roça com uma capela começou a se transformar em uma vila. O governo português começou a dar terra; virou sesmaria. Também começou a se formar o povoado de Santana do Capivari, que hoje é distrito de Pouso Alto”, explica Gustavo. O local se tornou passagem dos tropeiros e do ouro que ia para o litoral. Havia ainda um posto de cobrança de impostos do ouro que circulava. A fundação da cidade é atribuída a João dos Reis Cabral, paulista de Guaratinguetá, que obteve a sesmaria das terras em 1675.
Em 1832, a comunidade se tornou oficialmente uma Freguesia — uma unidade religiosa e civil mais organizada. O café chegou em Pouso Alto na década de 1870. A mercadoria era levada até o porto de Angra dos Reis, passando por Itamonte e Engenheiro Passos, atual distrito de Resende, no Rio de Janeiro, no caminho velho da Estrada Real.
O reconhecimento político veio em 1874, quando uma lei criou o Município de Pouso Alto, dando à região autonomia administrativa e elevando-a à categoria de Vila. O desenvolvimento foi rápido: em 1878, apenas quatro anos depois, outras leis fizeram a Vila crescer para a categoria de cidade e garantiram que ela tivesse seu próprio Tribunal de Justiça (a comarca). Ainda no século XIX, Pouso Alto foi o maior exportador de fumo do Brasil.
Mais tarde, no século XX, o território do município era tão extenso que precisou ser dividido: Pouso Alto cedeu terras para ajudar a formar novas cidades vizinhas, como Itanhandu (1923) e São Lourenço (1927), embora historicamente Pouso Alto tenha pertencido a Baependi.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição
Em 1752, o governo da época reconheceu que a pequena igreja inicial de Pouso Alto havia crescido muito e concedeu autorização para que ela tivesse o próprio padre, ganhando autonomia com o nome de Nossa Senhora da Conceição. A construção da Igreja Matriz data deste ano. Assim, a antiga capela dos tropeiros deu lugar, no século XIX, a uma igreja maior.
Gustavo conta uma curiosidade interessante: a Matriz sofreu um incêndio em 1885, que queimou também todo o arquivo paroquial da época. Os padres tentaram recuperar com a população o máximo de registros perdidos. Mas escreveram tudo fora da ordem cronológica, o que dificulta as pesquisas atuais. A construção que existe hoje é de 1968.
A imagem de Nossa Senhora da Conceição tem quase 200 anos, foi feita em uma única madeira e doada pelo Barão de Pouso Alto. Um fato curioso é que o barão encomendou a imagem em Portugal na mesma época em que a paróquia de Caxambu também encomendou a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. As duas vieram juntas, mas foram trocadas. A de Nossa Senhora da Conceição foi para Caxambu, e a de Nossa Senhora dos Remédios ficou em Pouso Alto. A confusão permaneceu por quase cem anos. As imagens só foram destrocadas na década de 1970. Hoje, a igreja faz parte do Caminho Velho da Estrada Real.
Personalidades ilustres de Pouso Alto
Pouso Alto tem uma bonita relação com a música e a literatura do Brasil. O maestro José de Alexandrino de Souza, natural da cidade, escreveu importantes peças de Semana Santa que ainda são executadas em Aiuruoca, São João del-Rei, na Polônia e na Alemanha, segundo informa Roseli Quirino, que planeja preservar a memória do maestro.
No passado, o ar seco, frio e rico em oxigênio das montanhas de Pouso Alto atraiu pessoas em busca de tratamento para doenças como a tuberculose. Foi o caso do diplomata e jornalista Ruy Ribeiro Couto, autor de Cabocla (1931), obra que viraria novela em 2004. Ele foi para Pouso Alto tratar a doença. Júlio Ribeiro, autor de A Carne (1888), também foi atraído pelo clima agradável e faleceu na cidade em 1890. Quem também morou em Pouso Alto foi Manuel Bandeira, que escrevia sobre o cotidiano local. “Por isso, ele captou o jeitão do pouso-altense”, comenta Roseli.

Tradições, gastronomia e vida em Pouso Alto
Depois de tanta história e tantas belezas, fomos almoçar no restaurante mais acolhedor da cidade, o Fogão da Roça, onde a comida repousa em um estratégico réchaud em cima de um carro de boi (Churrascaria Fogão da Roça. BR-354, Centro. @churrascariafogaodaroca). O lugar oferece delícias sem fim, tanto nas refeições quanto nas sobremesas. Mas nossa melhor surpresa foi conhecer Vânia Dotti, a comandante da cozinha, que sentou à mesa conosco e contou histórias tão saborosas quanto a própria comida. Ela seria protagonista de outra aventura gastronômica que nos aguardava mais tarde naquela inusitada segunda-feira.
A Secretaria de Cultura e Turismo preparou um evento especial para receber o grupo de jornalistas, simulando um festivo dia de confraternização na praça da cidade. Havia barraquinhas com produtos típicos, como queijo, leite, iogurte e artesanato.
A primeira apresentação foi da Folia de Reis Companhia dos Três Reis, resgatada recentemente por meio da Lei Aldir Blanc. O embaixador — líder do grupo —, Paulo Maciel dos Santos, explicou que a folia ficou parada alguns anos porque “Deus foi chamando os mestres antigos e eles foram embora. Os mais novos não quiseram assumir”. Então, ele decidiu se responsabilizar e conta que teve trabalho para reunir novos integrantes e investir na compra de todo o instrumental. Há três anos, a companhia se apresenta no asilo da cidade, projeto especial do grupo. “A tradição não pode acabar”, finaliza.

Houve ainda um encantador show com o violeiro Mateus Querino, do grupo Viola Encantada, que deixou a tarde ainda mais mágica. Lideradas por Vânia Dotti, um grupo de mulheres preparou a famosa ficazzella — patrimônio imaterial da cidade desde 1991. A delícia frita tem raízes italianas e é feita com massa simples de batata e recheio de tomate, muçarela da região e orégano.
O secretário de Cultura, Cleber Soares, explicou que o objetivo era mostrar como os moradores de Pouso Alto aproveitam os espaços públicos. “Vivenciar a experiência, a confraternização do pouso-altense na praça. Nossas festas todas têm sido aqui.” A feira acontece uma vez por mês.
O prefeito Raulysson Magella Mancilha Júnior, o Jun (PP), também esteve presente e disse esperar que Pouso Alto seja cada vez mais conhecida na região e no Brasil, atraindo mais turistas. Ele fez um convite especial: “A gente tem um turismo rural muito bonito, cachoeiras, vinícolas, fábricas de queijo, uma cultura muito vasta. Nossa cidade tem mais de 300 anos de história, 147 de emancipação política. Todo mundo será muito bem recebido aqui.” Motivos não faltam para conhecer essa terra tão linda e acolhedora.
Na próxima reportagem, você vai conhecer uma vinícola e uma queijaria de Pouso Alto premiadas pela excelência da produção, além do charmoso distrito de Santana do Capivari.
A jornalista Adriana Ibiti viaou a convite da Secretaria de Turismo de Cultura de Minas Gerais
Fonte: Portal da Cidade Ibertioga
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