Baependi se revela aos poucos, como quem convida a desacelerar. Entre as montanhas verdes, o município reúne sabor, tradição e natureza. Nossa primeira parada, no segundo dia da viagem, foi para conhecer uma plantação que envolve uma árvore fascinante: a oliveira, repleta de história e simbolismo. Nativas do mediterrâneo, as oliveiras podem viver por mais de mil anos. São símbolos de paz, sabedoria e vitória, consideradas sagradas em muitas religiões. É difícil não se impactar diante dela.
O casal Vanessa Bianco e Cláudio Alvarez, proprietários dos
Olivais Gamarra, localizados no Vale do Gamarra, aos pés do Parque Estadual da Serra do Papagaio, recebe a nossa equipe, com uma verdadeira aula entre as árvores místicas. “A oliveira é uma planta extremamente importante na história da humanidade, é uma das primeiras espécies vegetais a ser domesticada”, comenta Cláudio.
Eles se conhecerm quando estudavam em Campinas, na Unicamp, e costumavam visitar amigos, em Baependi. Quando Cláudio comentou comentou que iria se mudar para Caxambu, Vanessa respondeu. “Então eu vou com você e a gente casa”, relembra ela sobre o pedido de casamento inusitado. Ele é professor de história e ela de inglês.
O início de outro amor
Vanessa e Cláudio queriam viver perto da naturareza, preservar o meio ambiente e encontrar uma atividade sustentável na região. Descobriram, através da Epamig, que a oliveira vinha se adaptando ao Brasil e dediciram apostar no cultivo. “A oliveira ainda não está adaptada. Mas, está se adaptando. A gente não entendia nada. Começamos do zero, fizemos cursos, viajamos”, conta Vanessa ela. Atualmente, Baependi já conta com oito olivais.
A colheita é feita em mutirão e reúne de quatro a oito pessoas durante um mês ou mês e meio. Plantados em uma área de 8,5 hectares, os Olivais Gamarra se baseiam em princípios de respeito à natureza e ao ser humano. O cultivo é realizado através de manejo agroecológico, sem o uso de agrotóxicos, e concilia o desenvolvimento econômico local com a conservação do meio ambiente.
Cláudio explica que a adaptação ao clima brasileiro, tão diferente do Mediterrâneo, não é simples. Mas, tudo na oliveira pode ser aproveitado: a madeira é de qualidade excepcional, as folhas possuem propriedades terapêuticas e a azeitona produz o azeite, que já foi, inclusive combustível para lamparinas, conhecido como azeite lampante, ideal para fornecer luz nos ambientes fechados, sem gerar fumaça.
Diferença entre azeitona verde e preta
A oliveira é uma atividade de baixo impacto ambiental, porém exige frio no inverno pra florescer na primavera e garantir a colheita entre janeiro e fevereiro. Em 2024, o frio não foi suficiente. Entao, não houve produção. A próxia safra está prevista para 2026, já que o inverno de 2025 cooperou.
No Brasil, entre as variedades mais cultivadas estão arbequinas, koronei, grapo. Algumas servem pra mesa, outras não.
Uma curiosidade pouco conhecida: toda azeitona é verde e fica preta ao amadurecer. Para consumo, precisa passar por salmoura. “Uma azeitona mais verde, vai dar um azeite mais acentuado, a mais madura vai dar um azeite mais frutado, mais suave. O olivicultor vai escolher o ponto que ele vai colher pra poder chegar no sabor que ele quer”, explica Cláudio.
A azeitona mais verde rende menos. O azeite é resultado da trituração de toda a fruta, incluindo o caroço que também tem um pouco de óleo. Depois, a parte líquida - água e óleo -é separada. Nos Olivais Gamarra, o processo é artesanal, com uma prensa hidraulica criada pelo próprio casal, e comercializada para outros produtores e produtoras de todo o Brasil. “Enquanto uma máquina moderna faz em uma hora, nós levamos um dia. Mas, em um olival maior, é preciso ter uma máquina moderna”, explica Vanessa.
Degustação guiada ensina sobre cheiros e sabores
Os visitantes são conduzidos para a varanda, onde ocorre um dos momentos mais especiais da visita: a degustação guiada. Os olivais começaram a ser plantados há 18 anos, e hoje o casal possui cerca de três mil plantas. Um dos olivais compõe o cenário da varanda, ampliando a experiência.
Cláudio explica que o azeite extravirgem é feito a partir de azeitonas perfeitas e processadas rapidamente, garantindo baixa acidez. “Quando eu tiro a azeitona do pé, ela começa a oxidar. Se processo rápido, a acidez é baixa. No processo industrial, há mais chance de oxidar.”
Na degustação, os visitantes primeiro identificam aromas e sabores que podem aparecer no azeite — couve, pera, rúcula, maçã, tomate cereja. Um bom azeite extravirgem deve apresentar três características: picança, amargor e frutado. O terroir — vento, altitude, água, solo — faz diferença. O mesmo tipo de azeitona pode resultar em sabores distintos dependendo de onde é cultivado.
Depois, compara-se com um azeite industrializado. A diferença é evidente. “Azeite com gosto de azeitona é defeito, porque remete à fruta fermentada”, explica Cláudia, ao ensinar como identificar azeites virgens ou refinados, considerados de baixa qualidade.
Para fechar, torrada com manjericão da horta, queijo de Alagoa e, surpreendendo o paladar, sorvete de creme com calda de goiabada e azeite de limão siciliano.
Premiações no Brasil e no mundo
Em 2019, o Olivais Gamarra conquistou prata no Brazil IOOC (International Olive Oil Competition). Voltou ao pódio em 2021 e, em 2023, recebeu ouro no Evo Oil Contest, na Itália, ficando entre os cinco melhores azeites do Hemisfério Sul. Também recebeu ouro no TerraOlivo, uma das principais premiações internacionais de azeites, realizada em Israel, figurando entre os 500 melhores azeites do mundo.
“Foi muito significativo. Percebemos que estávamos no caminho certo”, afirma Cláudia.
Os azeites dos Olivais Gamarra são vendidos para todo o Brasil via WhatsApp (35) 98709-9890, e algumas linhas possuem lista de espera a partir de novembro.
@olivaisgamarra
As 160 cachoeiras de Baependi
A paisagem de Baependi, cidade de cerca de 18 mil habitantes, impressiona. O Pico do Canjica, por exemplo, alcança 2.350 metros de altitude. Em um dos muitos mirantes que contornam as estradas de terra, é possível avistar até onze cachoeiras na época de chuva. E não são pequenas quedas d’água: todas têm mais de 50 metros. Fica fácil entender o significado de Mantiqueira — “serra que chora”, em tupi-guarani — nome dado pela água que desce abundante pelas montanhas.
As paisagens se interligam entre municípios. A estrada do Nirvana cruza os morros e leva a Aiuruoca, dona de outros cenários igualmente deslumbrantes. Baependi possui grande extensão territorial, aproximadamente 750 quilômetros quadrados. Faz limite com Aiuruoca, Alagoa, Caxambu, Conceição do Rio Verde, Cruzília, Itamonte, Pouso Alto, São Tomé das Letras, e abriga o Parque Estadual da Serra do Papagaio. No município, é possível praticar esportes como mountain bike, rapel, trekking, hiking e passeios a cavalo.
As principais cachoeiras ficam na zona rural. A Cachoeira do Cavalo Baio com 215 metros de altura, é a segunda mais alta de Minas Gerais, atrás apenas da Cachoeira do Tabuleiro, em Conceição do Mato Dentro, com 237m. O acesso é feito por trilha. Baependi significa “clareira na mata” ou “que gente é a sua?”, de acordo com interpretações do tupi-guarani.
As quatro cachoeiras que visitamos
A primeira cachoeira que visitamos foi a do Juju que possui 130 metros de queda e uma borda infinita que lembra a “Janela do Céu”, em Conceição de Ibitipoca, mas com acesso muito mais simples: a trilha tem cerca de 30 minutos, percorrendo 2,4 km com dificuldade de fácil a moderada. No topo, poços naturais de água cristalina são ideais para banho e oferecem vistas de tirar o fôlego para o mar de montanhas. Já a base da cachoeira não é indicada para banho. O local é apropriado para a prática de rapel. Fica a cerca de 37 km da cidade.
Depois de um delicioso banho frio, seguimos para a Cachoeira do Caldeirão, que ormou-se após o desvio do curso do Rio Santo Agostinho, no século XIX, em razão da mineração. O poço pode chegar a 35 metros de profundidade, dependendo do volume da água. A queda tem seis metros e forma um poço de tons esverdeados, moldado pelo Cânion do Cavalo Baio. O banho é possível, porém, por ser profundo (até 20 metros), é recomendado apenas para nadadores e nadadoras experientes. A força da água pode fazer o poço borbulhar, como um caldeirão. Do estacionamento até a cachoeira, há uma trilha curta de 100 metros. Fica a 34 km do centro.
Pausa para o almoço na Cachoeira do Honorato Ferreira que pode ser visitada através de uma curta caminhada de 200 metros a partir do Bar do Curral — que, como o nome indica, era um antigo curral e hoje serve deliciosa comida mineira. A queda tem cerca de 10 metros e forma um poço de águas que podem ficar verde-esmeralda sob o sol. O acesso é fácil.
A última cachoeira visitada foi a Cachoeira do Itaúna, que também possui restaurante ao lado, oferecendo infraestrutura completa, onde provamos pastéis fresquinhos. A queda é de cerca de 10 metros, com poço amplo e belo reflexo esverdeado. Fica próxima ao bairro Piracicaba.
Nosso guia foi João Miguel Nadur que fez um convite especial. “Baependi é o paraíso das montanhas e das cachoeiras, ideal para amantes de esportes de aventura. É um destino que todo turista deveria conhecer”. O acesso ás cachoeiras é facilitado por estrada geralmente conservada, mas veículos 4x4 são recomendados, especiamente em períodos chuvosos. Nosso roteiro, seguro e rico em informações, foi conduzido pelo João e o Mauríio da Baependi da Mantiqueira.
@joaomigueloscar @baependi.da.mantiqueira
Bar que nunca fecha e contador de casos
A noite terminou no Bar Fecha Nunca, uma instituição baependinense fundada em 1924 e famosa por estar sempre aberta. E não faltou forró, que começou logo após a missa das 19h, no adro da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Montserrat.
@barechoperiafechaNos dois dias em que estivemos na cidade, o grupo se hospedou na Pousada Condado Santa Maria, do engenheiro Petrônio Niconiello, que projetou e construiu o espaço. Bom de prosa, ele recebe os hóspedes com o acolhimento mineiro característico e compartilha dicas preciosas sobre a região. A pousada é acolhedora e relaxante, com arquitetura que mistura elementos das fazendas do Sul de Minas com o estilo das vilas da Toscana. Possui jardim amplo e terraço ao sol, com vistas panorâmicas e sensação de tranquilidade e conexão com a natureza.
Para quem ficou com vontade de conhecer Baependi e deseja mais informações, basta procurar a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. (35) 92001-7545.
@culturaeturismo_baependi
A jornalista e diretora do Portal da Cidade Ibertioga viajou a convite da Secretaria de Cultura e Turismo do Estado de Minas Gerais.