Pedra de Amolar
No pé de passarinho, Juliana Prado transforma silêncio em poesia
Na coluna Pedra de Amolar, escritora mistura memória, imaginação e delicadeza para falar sobre a arte de observar aves sem pressa e em um cenário mágico
Publicado em
08/05/2026 às 16:04
Atualizado em
(Especial publicitário)
Acordei com banzo. Enjoada mesmo. Querendo voltar pra um tempo que nem sequer não existe. E mais: fazendo figa pra que o domingo fosse um dia eterno.
Acordei planejando inventar um dialeto novo. Em que pudesse falar com pássaro, encantar bem-te-vi, adivinhar coleirinho e obedecer pintassilgo.
Pus, então, um bodoque de flores nas mãos, me armei de sonhos e voei no tempo. Fui catar passarinho com os olhos.

A vida, que é tão imperfeita, impede que esse texto tenha som. Se assim me fosse dado o direito, vocês ouviriam, em meio a essas palavras soltas, rouxinóis indo dormir e até uma turma de João de Barro se preparando pra ser maior que Beethoven.
Se me fosse emprestado por alguns minutos (que fosse o tempo desse texto) o poder das coisas intocáveis de escrever como quem canta... vocês não iam acreditar! Veriam que tem alma pequena, mas de artista, o beija flor que faz morada no pé de fruta.
Se a cada letra eu te emitisse um som, você me ouviria dizer, com embargo na voz, que o sabiá está para orquestra assim como que pra eternidade. Que o fogo apagou é pássaro-música que vive manso em galho fino de árvore.

Mas não me foi entregue o dom de emitir do papel o som da vida. Se assim pudesse, eu não seria uma escrevedora. Mas, sim, uma mulher dada a magia.
Por isso, sem poder mais do que bem pouco, te conto baixinho, quase em silêncio, que, se você fizer concentração, fechar o olho bem apertado, entenderá que a vida se dá em árvore de passarinho. Se você confiar em mim, mesmo que minhas palavras não cantem bonito e alto, eu te contarei o mundo pela beleza de um sanhaço.
Afinal, você sabe bem: tem guerra lá fora, a gasolina disparou, as namoradas brigaram e o moço da farmácia perdeu o dom de curar. Mas me dá aqui sua mão. A vida se dá é na inteireza do ninho.

Se você tiver paciência e não se cansar, um dia vai entender: lá em Carmo de Serra Azul (meu lugar imaginário em que tudo dá em árvore) tem uma ave amanhecendo a todo momento. Ela pia fino, olha o céu absurdo, estreita o canto, estica a asa e estala o bico. Enfim, sacode a penugem como quem quer se exibir pra vida, e então, bem quieta, adormece.
E todo dia essa danada repete, repete, repete... até você ouvir, de uma palavra saída magicamente do papel, que a vida é uma pena. E que, pra ela ganhar prumo, tem que ser imaginada. A vida, agora eu te conto, muda ou rouca, ela se colhe é no pé. No pé de passarinho.
Anoiteceu. E eu nem vi. Guardo meu bodoque de flores no canto do quarto. Estufo o peito, sacudo as asas. Adormeço entre o arrulho cansado que quer sonhar de novo em ser gente passarinheira.

Pois, antes de dormir, queria de você o entendimento: a vida, passarinha, assim mesmo não sendo nada, já é coisa bonita demais. A vida mora num canto de mato, na imensa asa azul que voou aquele dia e quase ninguém no mundo não viu.
Que pena!
(Esse relato sem pé nem cabeça - mas muito bem intencionado - foi inspirado na incrível experiência de observação de pássaros que fiz em março de 2026 no Apiário da Cachoeira, entre Santana do Garambéu e Andrelândia. E é dedicado à maravilhosa e acolhedora família do nosso guia Samuel de Paula. Vocês são todos passarinhos.)
Juliana Prado
Instagram | @julianapradoc
Fonte: Juliana Prado
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