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Sabores que conectam: café e queijo unem três regiões de Minas Gerais

No projeto da Emater, produtoras e produtores de cafés especiais e de queijos minas artesanal trocam experiências e saberes

Publicado em 26/12/2024 às 23:38
Atualizado em

A turma toda reunida na cachaçaria Velho Ferreira (Foto: Portal da Cidade)

Garrafas com as bebidas produzidas na Mazuma Mineira (Foto: Portal da Cidade)

Vista superior do alambique da Mazuma Mineira (Foto: Portal da Cidade)

Barris com cachaça Mazuma (Foto: Portal da Cidade)

César Zanin explica sobre a fabricação da cachaça Mazuma Mineira (Foto: Portal da Cidade)

Silmara Emerick e Charles Lopes, produtores de cafés especiais em Alto Jequitibá (Foto: Portal da Cidade)

Vitoriano explica a tragetória de sucesso do empreendimento (Foto: Portal da Cidade)

Thatiana Garcia, coordenadora técnica estadual de turismo rural e artesanatao da Emater/MG (Foto: Portal da Cidade)

Por onde entra o leite de qualidade que será transformado em doces premiados do Vitoriano (Foto: Portal da Cidade)

Cachaças à venda na loja da Velho Ferreira (Foto: Portal da Cidade)

Fogão a lenha de onde saí as delícias de Vitoriano (Foto: Portal da Cidade)

Grupo reunido na loja da Velho Ferreira antes da visita guiada começar (Foto: Portal da Cidade)

Vista da varanda do Matuto (Foto: Portal da Cidade)

Marciel Morais, o Matuto de prosa boa (Foto: Portal da Cidade)

Barris de carvalho que armazenam a tradicional cachaça Velho Ferreira (Foto: Portal da Cidade)

Participantes do intercâmbio provam a cachaça Velho Ferreira (Foto: Portal da Cidade)

Placa artesanal de boas-vindas (Foto: Portal da Cidade)

Chegada bucólica na fazenda do Matuto (Foto: Portal da Cidade)

Queijo Minas Artesanal do Matuto (Foto: Portal da Cidade)

Queijo Matuto das Vertentes curado com café da Coffe Gripp, do Caparaó. Parceria que deu certo (Foto: Portal da Cidade)

Da janela lateral do Matuto (Foto: Portal da Cidade)

Degustação na cachaçaria Velho Ferreira (Foto: Portal da Cidade)

Moda de viola na experiência do Matuto (Foto: Portal da Cidade)

Em uma conversa durante um evento de queijos e cafés nasceu a ideia que está transformando três regiões de Minas Gerais: o intercâmbio entre produtores de cafés especiais da região Matas de Minas e Caparaó, e produtores de queijo da região Campo das Vertentes.

Caparaó é uma IG, ou seja, região com Indicação Geográfica, um reconhecimento oficial que identifica um produto como originário de um determinado lugar, em que as características ou qualidades se devem essencialmente ao meio geográfico, incluindo fatores naturais e humanos. No caso da "IG Caparaó", refere-se ao café produzido na região, que é conhecida por suas condições climáticas e de solo únicas, resultando em uma bebida de alta qualidade e sabor. A IG conta com 16 municípios, sendo 10 no Espírito Santo e seis em Minas Gerais. Parcipiparam do intercâmbio produtores desses municípios e do Alto Jequitibá, na região Matas de Minas. O objetivo é fomentar a venda de produtos, alavancar o turismo e promover trocas culturais e comerciais.

Uma Conexão de Experiências e Sabores

O projeto teve início em abril deste ano, com a visita de produtores de queijo da Campo das Vertentes à Matas de Minas. Em novembro, produtores do Alto Jequitibá e do Caparaó retribuíram a visita, conhecendo a rica tradição do agora patrimônio da imaterial da Humanidade, o Queijo Minas Artesanal (QMA). A visita aconteceu de 17 a 20 de outubro, no distrito de Bichinho, em Prados; e nos municípios de São João del-Rei e Coronal Xavier Chaves.

O Portal da Cidade acompanhou um dos dias de visitação, na tarde do sábado dia 19. Como nem só de queijo vive o turismo e a gastronomia da região, fomos conhecer duas cachaçarias e uma doceria antes do gran finale, para a degustação do queijo Matuto.

Cachaçaria Velho Ferreira: tradição e legado familiar

Primeiro, acompanhamos a equipe da Emater e os produtores e produtoras rurais até a Cachaçaria Velho Ferreira. Formos recebidos e recebidas pela gerente Paula Noronha que, depois de apresentar o local e alguns produtos na entrada da cachaçaria, levou o grupo para conhecer o alambique, onde a bebida é produzida e, também, aconteceu a degustação com vários tipos de cachaça. A marca, fundada na década de 1990, presta homenagem ao patriarca Antônio Ferreira Neto, o "Velho Ferreira".

A história conta que na primeira metade do século XX, Antônio Ferreira Neto, um tropeiro de Vitoriano Veloso (Bichinho), comprava cachaça da região para revender no armazém do pai dele, Vicente Ferreira Rodrigues, em São João del-Rei. Pai e filho compartilhavam o sonho de produzir a própria cachaça, um desejo que se tornou realidade na terceira geração da família. Em 1997, foi criada a marca Velho Ferreira, uma homenagem de Cláudio Ferreira da Silva ao pai, Antônio Ferreira Neto, conhecido como Velho Ferreira, que ilustra o rótulo da bebida. Desde o início, a cachaça é produzida em alambiques de cobre, preservando a qualidade e a tradição artesanal.

Cachaçaria Mazuma: inovação e raízes mineiras

A segunda parada da tarde de sábado foi na Cachaçaria Mazuma Mineira, onde o proprietário, César Zanin, recebeu o grupo e depois conduziu para o local de elaboração da cachaça, onde explicou que também produzem vodca e gim e como tudo começou.

A Mazuma Mineira nasceu em 2016 como o sonho de aposentadoria do pai de César, Fábio, um mineiro que, após encerrar a empresa de cortinas em Itajaí, Santa Catarina, decidiu explorar a produção de cachaça. Fábio realizou cursos de destilação, e o sucesso da bebida que produziu transformou um plano pessoal em um negócio promissor.

A destilaria se dedica à produção artesanal de cachaças, gins e vodcas, combinando tradição e inovação. O processo é minucioso, envolvendo desde a seleção da cana-de-açúcar até a destilação e o armazenamento. O controle de temperatura e umidade é rigoroso, com paredes espessas na adega e proximidade ao lençol freático para preservar a qualidade. A cachaça é envelhecida em madeiras nobres como carvalho francês, carvalho americano, amburana e jequitibá rosa, que conferem sabores únicos.

A Mazuma Mineira também diversificou a linha de produtos, incluindo gim elaborado com 13 especiarias e vodca destilada seis vezes, ambas utilizando álcool de cana. Além disso, a empresa colabora com produtores locais, fortalecendo a economia e a cultura da região. O símbolo da cachaçaria é uma libélula, comum na Serra de São José que bordeia toda a região. Por outro lado, a origem do nome é uma curiosidade à parte. “Mazuma significa 'mais uma' em mineirês ou no dialeto da embriaguez”, brinca César, rindo.

Vitoriano Doces: tradição em sabores excepcionais

Não poderia faltar um doce. E fomos para a premiada Vitoriano Doces, que produz doce de leite tradicional e com variações de dar água na boca. O proprietário recebeu a todas e todos, mostrou o fogão a lenha, o local onde as iguarias são preparadas e contou como foi o começo deste caso de sucesso.

A Vitoriano Doces construiu a própria reputação produzindo doces artesanais, licores, geleias, cachaças e cafés, destacando a tradição e a qualidade. A jornada começou de forma humilde, com o fundador Vitoriano preparando doces em casa, utilizando tachos para criar receitas tradicionais. Inicialmente focado no doce de leite tradicional, o negócio expandiu para incluir sabores diferenciados, como café, pequi, pistache e avelã. O aumento da demanda levou à necessidade de alugar uma casa para transformá-la em fábrica. O processo de desenvolvimento da infraestrutura, que incluiu reformas e a instalação de equipamentos, levou cerca de dois anos.

A Vitoriano Doces oferece uma gama diversificada de produtos, como doces de leite em sabores variados, licores de doce de leite, geleias de frutas e especiarias, doces em barra como goiabada cascão, cachaças (prata e ouro) e cafés produzidos em colaboração com fornecedores locais. Além disso, a empresa mantém parcerias estratégicas com produtores locais o que reforça o compromisso de usar ingredientes frescos e processos sustentáveis.

A produção artesanal da Vitoriano Doces preserva a essência dos alimentos sem o uso de conservantes. Para isso, o teor de açúcar foi ajustado gradualmente, garantindo uma validade de seis meses sem comprometer o sabor ou a qualidade. Embora mantenha a tradição nas receitas, a empresa investe em inovação, desenvolvendo novos sabores e produtos para atender às demandas do mercado.

Matuto e o intercâmbio cultural

A visita e o intercâmbio foram encerrados na fazenda de Marciel Morais, mais conhecido como Matuto, assim como os queijos que ele produz sempre com respeito ao meio ambiente e cuidado especial com os animais. Orgulhoso da origem humilde, Matuto recebe os visitantes com boa prosa e uma irresistível mesa repleta de delícias: queijos e outras quitandas produzidas por ele e pela família dele.

Marciel foi chamado de "matuto" em sua juventude, associado a uma imagem estigmatizada de simplicidade e rusticidade. No entanto, ao invés de se envergonhar, o produtor abraçou esta identidade, percebendo nela uma conexão com as origens dele e a própria história. O nome "Matuto" surgiu como uma forma de representar as vivências de Marciel e a tradição familiar na elaboração de queijos. O produtor buscou ressignificar o termo, transformando-o em um símbolo de orgulho e autenticidade. Assim, o queijo "Matuto" reflete não apenas o produto em si, mas também a identidade cultural e o espírito do produtor, que celebra suas raízes e história com orgulho.

Na varanda, a vista das montanhas encanta os olhos, enquanto o som da moda de viola completa e experiência, transformando o passeio em momentos inesquecíveis. Um dos destaques do intercâmbio é o queijo curado com café, resultado de uma das primeiras parcerias práticas entre as regiões. O café especial utilizado no processo vem da fazenda de Paula Gripp, produtora da Coffee Gripp, localizada no Caparaó. Paula, que visitava o Campo das Vertentes pela primeira vez, expressou satisfação com a experiência, destacando o aprendizado e as conexões feitas durante a jornada.

O grupo ainda visitou a Queijaria Tarôco, em São João del-Rei; Queijos Jacuba, em Coronel Xavier Chaves, Queijaria FazFor e Vila Carassa, em Prados. 

Depoimentos que inspiram

Silmara Emerick é proprietária do Sítio Imperial da Serra, onde produz o premiado Café da Silmara. Ela e o marido, Charles Lopes, destacam a diferença entre a região do Campo das Vertentes e a do Caparaó, focada principalmente na agricultura familiar. “Conhecer a região do Campo das Vertentes abre a visão de como pode funcionar lá também. É uma experiência única. Aqui tem mais turismo. Mas, aos poucos, podemos levar o que aprendemos aqui pra lá também. Achamos ótimo”. Silmara considera a organização turística do Campo das Vertentes mais avançada e bem estruturada, mesmo sendo em localidades menores. Além disso, o casal notou uma qualidade superior e um custo mais acessível no artesanato local.

Já a secretaria de Administração do Alto Jequitibá, Sandra Helena Sathler, classificou a experiência como maravilhosa. “É bom pro pessoal investir, alavancar o turismo de lá. O intercâmbio abre estes caminhos”.

O responsável pelo escritório da Emater em Manhuaçu, Rômulo Matozinhos, avaliou a experiência como positiva. Ele explica que, depois da visita dos produtores e produtoras de queijo das Vertentes na região deles, os agricultores locais montaram uma feira com os produtos de cada propriedade. A feira, que acontece mensalmente, às quintas-feiras, continua funcionando e oferece também gastronomia e artesanato.

Além disso, destacam-se as vendas de cafés produzidos no município, algo que não ocorria anteriormente. “Algumas pessoas da própria cidade nunca haviam experimentado cafés especiais”, comenta Rômulo. Segundo ele, a ideia é expandir esse tipo de intercâmbio para outras regiões, promovendo a troca de produtos e potencializando as vendas. Além disso, Odair José Gerônimo, gerente da Emater de São João del-Rei, enfatiza que o intercâmbio contribui para o fortalecimento dos dois produtos.

Responsável também pelo projeto, a coordenadora técnica estadual de Turismo Rural e Artesanato da Emater/MG, Thatiana Garcia, fez um balanço positivo da experiência de troca entre as duas regiões. Segundo ela, a valorização das histórias pessoais desempenha um papel importante no diferencial dos produtos. “Esperamos que esse intercâmbio cultural e comercial traga benefícios concretos para as regiões envolvidas. Há a expectativa de que, no futuro, possamos mensurar o impacto dessas colaborações na comercialização de cafés especiais e queijos entre diferentes regiões”, finaliza.

Experiências ao seu alcance

O melhor de tudo é que estas atividades podem ser vividas por qualquer pessoa. Basta entrar em contato com os empreendimentos (nos links disponibilizados na reportagem) e agendar uma visita guiada. Além disso, a Emater oferece o catálogo Rota do Queijo - Terroir das Vertentes, disponível online, com diversas experiências em diferentes municípios da região. É só acessar e baixar aqui.


Fonte: Portal da Cidade Ibertioga

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