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Pedra de Amolar

Coragem é seguir em frente, mesmo quando o medo insiste

Na coluna Pedra de Amolar, Juliana Prado escreve sobre medos, coragem e as pequenas vitórias de quem escolhe viver apesar dos espantos

Publicado em 03/07/2026 às 19:40
Atualizado em

Mulher um pouco antes de voar (Foto: Ilustração Canva)

A sobrevivida de Matosinhos soltando tsurus. Porque voar é antídoto contra o medo (Foto: Acervo pessoal de Juliana Prado)

(Especial publicitário)


Tenho medo de muito pouca coisa. E isso já é uma vitória danada. Ainda odeio sapos. Mas entendi que tenho fobia. Que é uma espécie de medo com permissão da ciência. Tenho medo de altura. Fui cruzar o pontilhão do Rio das mortes e recuei. Enjoei umas 4 vezes. Fui até a metade. Recuei De novo. Fiquei mal por aquilo. Mas me perdoei.

Com o tempo, passei a ter medo de quase nada. Já tive lagartixa de estimação, estudei sob a neve congelante das 6 da madrugada de São João del-Rei. Sou braba. Criei cascos nas costas de tanto cair. Cascos não se criam dormindo.

Subi e desci a rua da minha infância com o coração na boca. Achava que alguém uma hora ia me pegar. Era certo como favas contadas. Mas cá estou. A Sobrevivida do Matosinhos.

A coragem tá no espanto


Talvez pelo excesso de cautela que acumulei já não tenha medo de quase nada. Contanto que não seja chuva de aluvião (que droga é essa?), mata fechada, multidão de perguntas, percevejos em bando... tiro de letra.

Tenho uma casca de cinco mil anos. Vem tempestade, chifre de touro, ataque de raio. Estou pronta. Não há mais nada a temer. Passo por pinguela, como jiló, aperto a mão do inimigo. Não há mais nada a fazer. Talvez pelo excesso de noites e dias comece a comer o tempo com garfo e faca.

Desembaraço as horas. Vou provando água de chuva, sol de arrumação. Tempo de fogo e sonho. Digo e redigo: não há mais nada a temer.

Revisão: menti um pouco. Ainda tenho medo de assalto, assombração e vento de dois dígitos por hora. Também morreria antes de uma cobra me morder. Tenho pavor de exposição e de perder, de repente, a palavra.

Na verdade, o fato é que viver é um espanto. E há que se ter coragem para tanto.


Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista

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Fonte: Juliana Prado

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