Pedra de Amolar
O sertão pela fresta dessa janela
Na coluna Pedra de Amolar, Juliana Prado compartilha a experiência de conhecer Cordisburgo e atravessar, pela imaginação, o universo de Guimarães Rosa
Publicado em 04/09/2026 às 21:00
(Especial publicitário)
Tenho mania de criar meus próprios lugares míticos. Se uma história me seduz, e ela me remete a algum lugar, eu meio que me apaixono por aquele lugar. Coisa de cisma, sabe?
Pois foi assim com a mineira Cordisburgo, cidade natal de João Guimarães Rosa, considerada o portal do Sertão no Brasil. É ali uma espécie de marco do início do cerrado e o risco inaugural das cavalgadas e jagunçadas contadas por Rosa.

Desde muito nova, encasquetei de conhecer Cordisburgo. Essa vontade foi ficando adormecida, a vida foi me levando pra outras Veredas. Mas sempre me lembrava do dia em que conheci pessoalmente o personagem Manoelzão, da linda história "Manoelzão e Miguilim". Estudava em Juiz de Fora, na UFJF, quando conheci aquele senhor de barbas longas e olhar sereno. Ora, um personagem de Guimarães Rosa ali, na minha frente! Brotou, então, o sonho de alcançar o "Cordis Burgo", o "povoado do coração". A cidade mítica.
E de tanto querer, a gente enverga em fazer. O que a vida quer da gente é cisma né? Pois bem. Em agosto de 26, eu finalmente finquei os pés no solo sagrado da mineira terra de Rosa. Ao lado de minha mãe, minha companheira de incursões, cheguei ao portal do Sertão. Estava ali, no calor escaldante do chão do menino João Guimarães Rosa.

E, daí em diante, foi só história e emoção. Adentrei o reino da criança que ficava atrás do balcão da venda do pai, de frente pra estação de trem de Cordisburgo, esperando as composições se aproximarem com o povo. Ali, ele ficava atento aos causos contados pelos moradores que chegavam pra comprar mantimentos no armazém do seu Florduardo Rosa.

Nesse lugar, onde o projetinho de escritor já guardava histórias que levaria aos livros futuramente, funciona hoje o lindo Museu Casa Guimarães Rosa. Que lugar mágico! Certa hora, fui até a janela do quarto onde o menino nasceu e cresceu e, sem contar pra ninguém, mirei pela janela de madeira, que estava fechada mas tinha umas frestas. Por uma dessas frestas, consegui ver uma nesga da estação de trem. E, claro, criei história na minha própria cabeça. Naquele exato momento, fui Rosa, Miguilim, Manoelzão... Fui jagunça, Diadorim, Zé Bebelo, fui Nhorinhá e Otacília. Pela fresta, por onde, acredito e por acreditar, boto fé e fio, fui, por uns 20 segundos, a menina dos olhos de Rosa. Só por aquele olhar pela fresta da casa do escritor já me valera a viagem. Ali eu tinha feito meu próprio canto mítico.

Não bastasse esse privilégio de sonhar de dentro da casa de Rosa, eu pude pisar o chão da venda mágica de seu Florduardo, o quarto da avó do menino, a cozinha da casa e tanto mais.... E ainda encontramos por lá, pelo museu, o Grupo de Contadores de Estórias Miguilins. A prima do escritor Dôra Guimarães, responsável pelo projeto, reuniu alguns dos jovens pra declararem trechos da novela Campo Geral, do livro Corpo de Baile, pra gente. Foi algo de chorar! Crianças e adolescentes, os Miguilins e as Miguilinhas, dizendo lindamente passagens pela voz de um dos personagens mais encantadores de Rosa, o pequeno morador da cidadezinha de Mutum.

Olha, não sou "mulher" de meio dia com orvalhos (com a licença de adaptar a linda frase de Grande Sertão Veredas), mas amoleci vendo aquela beleza toda. Os olhos faltaram saltar de emoção. Crianças forjadas na obra do maior romancista brasileiro. Todas fora das telas, envolvidas, num sábado de calor de lascar, em dar voz aos seus Miguilins. Luxo só!
Disso tudo eu penso mesmo é que a vida tem jeito. Você que me lê me entende? Serásse? Afinal, aqui no nosso Brasil, na imensa Minas Gerais, existe um lugar mítico. O sertão de Guimarães. A casa da palavra e da literatura mais misteriosa já inventada. A que mistura seca, jagunçagem, neblina, poesia, a dor da existência, o amor e o demo, num redemunho de introspecção e mineiridade. O universo cabe dentro do beco Travessa Guimarães Rosa, que vai desembocar na linha do trem.
Cordisburgo me atravessa como se fosse, ela mesma os raios do sol do Sertão. Ave, Miguilim!
O que a vida quer da gente é encanto e imaginação. Ou uma besteira qualquer, como a fresta aberta de uma janela.
O sertão é o oco e o vazio do homem. E, se reparar bem, nele cabe o mundo inteiro.
No-na-da.
Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista
Fonte: Juliana Prado
Notícias relacionadas
A chuva, o voto e a esperança
04/10/2026 às 10:03
Três poemas em três tempos
18/09/2026 às 19:51
Vargem Bonita recebe Festival Aromas e Sabores da Canastra neste fim de semana
18/09/2026 às 19:03
Xodó conquista bicampeonato no 10º Sabores de Ibertioga
10/09/2026 às 21:03
Macacos Cine Fest estreia com cinema, música, gastronomia e encontros
03/09/2026 às 21:00
Projeto Matriz celebra 37 anos com grandes nomes da música em Conceição do Mato Dentro
02/09/2026 às 20:47