Pedra de Amolar
A sorte, a manteiga do pão e uma rasteira semente
Na coluna Pedra de Amolar, Juliana Prado mistura poesia, memória e sorte para refletir sobre a vida, suas contradições e a força de quem não se resigna
Publicado em
16/10/2026 às 19:26
Atualizado em
(Especial publicitário)
Com ou sem trago, prossigo.
Cega, sossegada.
Afoita. Esperançada.
Sigo, que nada anda de fasto. Sou rastro.
Hoje tostei duas bagaças de pão. Lambuzei de unguento dos dois lados. Se caiu de barriga pra baixo não foi culpa da má fase.
Eu me benzeria de flor do mato. E viveria feliz. Caindo aos pedaços.
Minha manteiga nem sempre caiu pra cima. É fato.
Sou sina. Do Mato. Enfeitiçada.
Acho que minha sorte nasceu no acaso.
Não sou santa nem inesperada.
Eu faço versos como quem chora.
De benzedeira à perdição, ninguém duvida: sou torta. Impura. Nunca resignada.
Eu faço versos como quem implora.
Pelo pão.
Pela aurora.
Por Deus e nossa Senhora.
Hoje à tarde eu cismei.
Não era nada.
Mistura de apocalipse com amora. (Não é só rima, senhora! É lembrança antiga. Coisa de outrora)
Mas vai!
Cega. Desarmoniosa.
Cada dia mais um remendo de gente calamitosa.
Abaixe as vistas, agora!
Piscou. Viveu tudo naquele segundo.
E Desentendeu das coisas de vez.
Finalmente um Enxerto rasgado de gente.
Rasteira Semente.
Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista
Fonte: Juliana Prado
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