Portal da Cidade Ibertioga

Pedra de Amolar

A chuva, o voto e a esperança

Na coluna Pedra de Amolar, Juliana Prado narra o encontro com um jovem eleitor e reflete sobre a beleza de votar, sonhar e acreditar na democracia

Publicado em 04/10/2026 às 10:03

Juliana depois de votar em 2024 (Foto: Acervo pessoal de Juliana Prado)

Detalhe da urna eletrônica (Foto: Ilustração Pinterest)

(Especial publicitário)


Era sábado à tarde. Na minha eterna tensão pré eleitoral, fui gastar sola de sapato na rua. Tinha que entregar minha Pedra de Amolar. Já com atraso (cá entre nós apenas, minha editora Adriana Ibiti não precisa saber) resolvi dar uma ida na cidade ver o movimento do último sábado de campanha. Minha cabeça amolada, tensa com a véspera da votação, não conseguia parir uma ideia de texto. 

E o relógio andando e o tempo correndo e nada de tratar de polir a minha pedra. A palavra, quando quer, sabe ser bruta.

Mas eis que, em meio à chuva inclemente, passa por mim um rapaz. O óculos de grau embaçado da bendita chuva spray tentava se limpar quando avistou: num gesto rápido, meio ao acaso, o moço cola do lado esquerdo do peito o adesivo de um candidato. E segue seu rumo. Naquele instante, vi poesia onde antes era chuva, frio e uma coluna atrasada na entrega em um dia. 

Ali congelei a vista e a pressa. E lembrei o quanto a vida presta. Amo votar, desde que me entendo por gente. E acho que aquele moço, novinho, que pregou no coração o adesivo do seu candidato e foi-se embora (pra onde vai tanta gente, meu deus?) também deve ser dessa estirpe de gente. Fato é que meu personagem flanando pela rua molhada de chuva inclemente me inspirou a amolar minha palavra. 


Voto como se ali, a cada som confirmado na urna, se carregasse um sonho de país. Um sonho de vida. 

Uma ingênua, vocês dirão. Sim... eu e o moço da praça molhada que cola do lado do coração o nome do seu candidato. A cada dois anos, o primeiro domingo de outubro é dedicado a nós: os bobos da nação e da rua molhada da chuva insistente. 

Eu voto como quem chora.

Porque sei que é o que me compete na construção de uma ideia de país. A todo ano, desde 1992 (!!), tenho na eleição um ato quase sagrado. Um rito emoldurado. É isso! Se pudesse, emoldurava num canto de casa um domingo de eleição. E teria uma obra de arte com nome de DEMOCRACIA. 

"Otária", outros dirão. "É só um voto". Sim... Sou assumida mosca morta, a Macabeia dos desvãos. Otária! e bastante democrata.

Eu e o rapaz do adesivo molhado no peito. 

Fica aqui meu ato de amor democrático. Convido a todos, clowns, bobas, inocentes, sonhadores de todo país.... Votem com força, intensidade e amor.  

Uma hora a chuva para, a praça se seca e o coração que portava um sonho se alegra. 

Dito tudo isso, espero que seu voto tenha a beleza e a luz de uma tarde de sol. Que seu coração te conduza sempre a ter ânimo de votar. Que você possa cruzar na rua com um moço ou uma jovem de adesivo no peito. E que eles dancem do nada, assim que cruzarem seus olhos molhados. Terão dúvida: a mulher que me olha tem chuva ou lágrima nos olhos? 

Bom voto! Ave democracia!


Juliana Prado - Poetisa, escritora e jornalista

Instagram


Fonte: Juliana Prado

Envie sua notícia

Participe do grupo do Portal da Cidade no WhatsApp