Jogo delas
Damas da Bola: como o futebol transforma a vida de meninas em Piedade do Rio Grande
Criado em 2018 por um grupo de meninas e dois irmãos, projeto reúne cerca de 40 meninas e transforma a quadra em espaço de esporte, amizade e oportunidades
Publicado em
15/09/2026 às 23:42
Atualizado em
Em 2019, quando um grupo de oito a dez meninas, em Piedade do Rio Grande, queria jogar futebol, não havia um time feminino por perto. Foi a partir desse desejo que os irmãos Gustavo Henrique Silva e César Augusto Silva, ainda jovens, decidiram começar um projeto para dar às meninas a oportunidade de praticar o esporte.
O começo foi simples. Os treinos aconteciam em uma quadra com estrutura precária e até a bola precisou ser improvisada. “Começou com uma bola tipo dentinho de leite, daquelas bolas do mercado, até a gente ganhar uma bola”, lembra Gustavo.
O que nasceu pequeno foi crescendo. Hoje, o Damas da Bola reúne cerca de 32 meninas nos grupos de treinamento e aproximadamente 40 participantes no total, distribuídas principalmente por faixa etária.
Os dois irmãos continuam à frente da iniciativa como idealizadores e treinadores, sem receber pelo trabalho. Os treinos acontecem às sextas-feiras, das 18h às 21h, e, em algumas ocasiões, também aos sábados, nas quadras das escolas do município. A equipe conta ainda com a participação de Ramon da Silva Aguiar, Cláudio Rodolfo, Rodrigo Ferrara e a colaboração de Letícia Oliveira e Rayane Silva.
Um projeto que nasceu para abrir espaço

Para Gustavo e César, ensinar futebol nunca foi apenas preparar as meninas para disputar campeonatos. A ideia desde o início era criar uma ocupação saudável e um ambiente no qual elas pudessem conviver, aprender e desenvolver outras habilidades.
César explica que o objetivo maior sempre foi manter as crianças e as adolescentes envolvidas com o esporte.
“Quanto mais você pratica o esporte, mais você ocupa a cabeça fazendo uma coisa boa. Você fica mais saudável, está fazendo uma coisa que você gosta e pai e mãe ficam despreocupados.”
Segundo ele, ao longo dos anos, os irmãos também perceberam mudanças na vida de algumas participantes. César conta que chegaram a acompanhar meninas que tinham hábitos prejudiciais e que conseguiram mudar esse comportamento com o apoio proporcionado pelo esporte.
A proposta, portanto, vai além do resultado de uma partida. É também uma forma de manter meninas reunidas em torno de uma atividade que exige disciplina, convivência e dedicação.
De oito meninas a uma equipe inteira

O crescimento foi acontecendo aos poucos. A pequena equipe formada em 2018 passou a ter diferentes grupos de treinamento, organizados principalmente por idade. As mais novas vão sendo preparadas para compreender fundamentos e situações do jogo, enquanto as maiores avançam para competições.
Entre as jogadoras que ajudam a contar essa trajetória está Monique, que começou aos oito anos e hoje, aos 17, é apontada pelos treinadores como uma das principais referências do time e sua artilheira.
A própria história do nome do projeto também nasceu da participação das meninas. Em 2019, elas fizeram uma votação para escolher como o time seria chamado. Entre as opções, venceu Damas da Bola. A escolha partiu das próprias jogadoras e permaneceu como identidade da equipe desde então.
Quando a pandemia quase interrompeu tudo

Um dos períodos mais difíceis foi a pandemia de Covid-19. Sem poder utilizar normalmente a quadra por causa das restrições às aglomerações, os treinadores procuraram alternativas para que as meninas não abandonassem completamente os treinos.
Gustavo conta que eles passaram a se encontrar em espaços ao ar livre e em horários mais frescos. Levavam água e mantinham as atividades dentro das possibilidades daquele momento.
A preocupação era simples: não deixar o projeto parar.
“A ideia é não deixar o projeto morrer. Sempre buscando e buscando e buscando”, resume Gustavo.
A derrota que fez as meninas desacreditarem
Depois de tantos anos de trabalho, nem todos os resultados foram positivos. Em 2025, a participação nos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) foi especialmente difícil.
Enquanto outras equipes da cidade conquistaram medalhas, as meninas do Damas da Bola ficaram sem a premiação que esperavam. Para César, o resultado teve um impacto maior do que simplesmente perder uma competição.
“Elas ficaram meio que desacreditadas. Começaram a achar que elas nunca iriam ganhar”, conta.
A resposta veio pouco depois, no Campeonato Bom de Bola. O time foi campeão nas duas modalidades disputadas, resultado que, segundo César, representou uma mudança na maneira como as próprias meninas e outras pessoas passaram a enxergar a equipe.
No ano seguinte, a equipe voltou ao JEMG e chegou à semifinal.
Para os treinadores, a evolução mostra que o trabalho não se resume a ganhar troféus. As competições também ajudam as meninas a ganhar confiança.
Dois irmãos que fazem o trabalho de forma voluntária

Por trás da equipe existe uma particularidade que ajuda a dimensionar o esforço envolvido: Gustavo e César são jovens e dedicam parte do próprio tempo ao projeto sem receber pelo trabalho. Gustavo atua funcionário de uma empresa da cidade e Cesar é vereador e professor de música.
Os dois jogam futebol desde cedo e continuam praticando. Embora não tenham formação em Educação Física, buscam conhecimento por meio de cursos e conteúdos de outros treinadores para levar novos exercícios e ideias às meninas.
César também destaca que os treinadores precisam adaptar a maneira de ensinar, especialmente por trabalharem com meninas. Vídeos, quadro tático, demonstrações e até bolas infláveis são usados para explicar situações de marcação e contato sem necessidade de contato físico entre treinador e jogadora.
É um trabalho que exige tempo, paciência e responsabilidade — e que acontece paralelamente à vida pessoal e profissional dos dois irmãos.
Futebol também é amizade e família
Nas entrevistas feitas pelo Portal da Cidade Ibertioga, as meninas repetem uma palavra quando falam sobre o que o Damas da Bola representa: amizade.

Yara Caroline, de 15 anos, conta que começou a jogar incentivada pela família e destaca justamente as amizades e os campeonatos. Para ela, chegar à semifinal do JEMG e conquistar o Bom de Bola estão entre os momentos mais marcantes da trajetória.

Yasmin, de 13 anos, entrou no projeto em março deste ano. Acostumada a jogar futebol com os irmãos e primos, encontrou no time novas amizades e diz que o esporte ensinou a ela sobre união e parceria.
Para outra das jogadoras entrevistadas, a relação construída dentro do projeto é ainda mais forte e resume o que sentem ao falar da ajuda recebida dos dois irmãos: “Agradecemos muito o trabalho do Gustavo e do César.”
Quando o futebol é também uma história de família
Algumas histórias atravessam gerações.

Willyane Vitória, de 11 anos, é goleira e começou a jogar depois de conhecer o esporte na escola. O incentivo veio também da família e, principalmente, da mãe, que já jogou futebol e disputou competições como o JEMG.

Noemi Vitória, também goleira, entrou no Damas da Bola incentivada pelo pai, que jogava no gol e a levou para o primeiro treino quando ela tinha cerca de sete ou oito anos.
A história de Noemi ganhou um significado especial em 2025. Depois da morte do pai, que enfrentava um câncer, ela disputou o Bom de Bola e ajudou a equipe a conquistar o título. Também recebeu o prêmio de melhor goleira e dedicou a conquista a ele, cumprindo uma promessa feita antes de sua morte.
São histórias que mostram que, para algumas meninas, o futebol começa dentro de casa, passa pela quadra e acaba se tornando parte da própria identidade.
“Futebol não tem gênero”
Outra questão aparece com frequência nos relatos: o preconceito de que futebol seria uma atividade masculina.

Marina Saldanha, de 13 anos, conta que sempre foi fascinada pelo futebol, mas não tinha tido oportunidade de praticá-lo até conhecer o projeto. Hoje, diz que o esporte lhe trouxe momentos importantes e que pretende continuar jogando.

Ela não é a única a ter ouvido que futebol seria “coisa de menino”. Larissa, de 11 anos, resume sua posição de forma direta: “É apenas um esporte e não tem gênero para poder praticar o esporte.”

Para Maria Antônia, capitã de um dos módulos, o futebol feminino também é uma maneira de mostrar que meninas podem ocupar esse espaço.
O desafio de continuar depois dos 18
O crescimento do projeto trouxe um desafio novo. Algumas das primeiras meninas estão chegando à idade em que deixam os módulos atuais, mas ainda querem continuar jogando.
Por isso, Gustavo e César estudam a possibilidade de criar um módulo adulto, permitindo que as jogadoras que completarem 18 anos continuem ligadas ao Damas da Bola. A ideia, porém, depende da disponibilidade das próprias atletas, que passam a conciliar trabalho, faculdade e outras responsabilidades.
“Se elas toparem, a gente vai estar disponível para conversar”, afirma César.
A intenção é também ampliar a participação em campeonatos, organizar torneios e amistosos e fortalecer o futebol feminino na região.
Crescer sem perder a essência

O principal desafio imediato, entretanto, ainda é financeiro. Com o aumento do número de meninas, cresceram também as necessidades de equipamentos e uniformes.
César explica que o projeto já conta com apoio para algumas despesas, como transporte para viagens, mas ainda encontra dificuldades para conseguir uniformes e outros materiais para todas as participantes.
Mesmo assim, o trabalho continua.
O Damas da Bola começou com oito ou dez meninas, uma quadra com estrutura precária e uma bola improvisada. Hoje, reúne dezenas de jogadoras, disputa campeonatos, acumula histórias e já pensa no futuro.
E talvez uma das características mais marcantes dessa trajetória esteja justamente fora das quatro linhas: dois irmãos jovens, com menos de 30 anos, que poderiam simplesmente estar ocupados com suas próprias vidas, mas escolheram reservar parte do tempo para ensinar meninas a jogar futebol.
O projeto cresceu. As meninas cresceram. E Gustavo e César continuam ali, às sextas-feiras, entre treinos, bolas, quadra e sonhos — mantendo aberta uma porta que eles mesmos ajudaram a criar em 2018.
Assista os melhores momentos do treino do Damas da Bola
A coluna Jogo Delas é uma parceria entre o Portal da Cidade Ibertioga e a Revista Mana
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Adriana Ibiti (Portal da Cidade Ibertioga)
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Fonte: Portal da Cidade Ibertioga
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